segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Seja um idiota


A idiotice é vital para a felicidade. 
Gente chata essa que quer ser séria, profunda e visceral sempre. Putz! A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima, um tratado? Deixe a seriedade para as horas em que ela é inevitável: mortes, separações, dores e afins.
No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota! Ria dos próprios defeitos. E de quem acha defeitos em você. Ignore o que o boçal do seu chefe disse. Pense assim: quem tem que carregar aquela cara feia, todos os dias, inseparavelmente, é ele. Pobre dele.
Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor, dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice. Trate seu amor como seu melhor amigo, e pronto.
Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém que tem conselho pra tudo, soluções sensatas, mas não consegue rir quando tropeça?
hahahahahahahahaha!...
Alguém que sabe resolver uma crise familiar, mas não tem a menor idéia de como preencher as horas livres de um fim de semana? Quanto tempo faz que você não vai ao cinema?
É bem comum gente que fica perdida quando se acabam os problemas. E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar?
Desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém assim comigo. Você quer? Espero que não.
Tudo que é mais difícil é mais gostoso, mas... a realidade já é dura; piora se for densa.
Dura, densa, e bem ruim.
Brincar é legal. Entendeu?
Esqueça o que te falaram sobre ser adulto, tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira, não ser imaturo, não chorar, não andar descalço, não tomar chuva.
Pule corda!
Adultos podem (e devem) contar piadas, passear no parque, rir alto e lamber a tampa do iogurte.
Ser adulto não é perder os prazeres da vida - e esse é o único "não" realmente aceitável.
Teste a teoria. Uma semaninha, para começar.
Veja e sinta as coisas como se elas fossem o que realmente são: passageiras. Acorde de manhã e decida entre duas coisas: ficar de mau humor e transmitir isso adiante ou sorrir...
Bom mesmo é ter problema na cabeça, sorriso na boca e paz no coração!
Aliás, entregue os problemas nas mãos de Deus e que tal um cafezinho gostoso agora?
A vida é uma peça de teatro que não permite ensaios. Por isso cante, chore, dance e viva intensamente antes que a cortina se feche!

                                                  Arnaldo Jabor 

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Aula 07 - Romantismo

O Verão e as Mulheres de Rubem Braga

O Verão e as Mulheres
Rubem Braga

                                           fonte:wamp.com.br
 

Talvez tenha acabado o verão. Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol é muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.
Estamos tranqüilos. Fizemos este verão com paciência e firmeza, como os veteranos fazem a guerra. Estivemos atentos à lua e ao mar; suamos nosso corpo; contemplamos as evoluções de nossas mulheres, pois sabemos o quanto é perigoso para elas o verão.
Sim, as mulheres estão sujeitas a uma grande influência do verão; no bojo do mês de janeiro elas sentem o coração lânguido, e se espreguiçam de um modo especial; seus olhos brilham devagar, elas começam a dizer uma coisa e param no meio, ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho. Seus cabelos tornam-se mais claros e às vezes os olhos também; algumas crescem imperceptivelmente meio centímetro. Estremecem quando de súbito defrontam um gato; são assaltadas por uma remota vontade de miar; e certamente, quando a tarde cai, ronronam para si mesmas.
Entregam-se a redes; é sabido, ao longo de toda a faixa tropical do globo, que as mulheres não habituadas a rede e que nelas se deitam ao crepúsculo, no estio, são perseguidas por fantasias e algumas imaginam que podem voar de uma nuvem a outra nuvem com facilidade. Sendo embaladas, elas se comprazem nesse jogo passivo e às vezes tendem a se deixar raptar, por deleite ou preguiça.
Observei uma dessas pessoas na véspera do solstício, em 20 de dezembro, quando o sol ia atingindo o primeiro ponto do Capricórnio, e a acompanhei até as imediações do Carnaval. Sentia-se que ia acontecer algo, no segundo dia da lua cheia de fevereiro; sua boca estava entreaberta: fiz um sinal aos interessados, e ela pôde ser salva.
Se realmente já chegou o outono, embora não o dia 22, me avisem. Sucederam muitas coisas; é tempo de buscar um pouco de recolhimento e pensar em fazer um poema.
Vamos atenuar os acontecimentos, e encarar com mais doçura e confiança as nossas mulheres. As que sobreviveram a este verão.
Março, 1953.

Frases de Nelson Rodrigues (mestre realista)



"Invejo a burrice, porque é eterna."

"Nem todas mulheres gostam de apanhar, só as normais"

"Só o cinismo redime um casamento. É preciso muito cinismo para que um casal chegue às bodas de prata."

"As grandes convivências estão a um milímetro do tédio"

"Convém não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há no ser humano, e ainda nos melhores, uma série de ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las."                                                                                        Nelson Rodrigues

A Magia da Poesia Mário Quintana


Sábias agudezas... refinamentos...
- não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.
Mario Quintana

sábado, 27 de novembro de 2010

Algumas Palavras....


                                            Algumas palavras....


Estou  aqui,num  matinal sábado ensolarado da “pacata” cidade de Euclides da Cunha, a fazer algumas elucubrações sobre temas da vida. Fico a pensar , por exemplo,o quanto de absurdez  existe na dita normalidade vigente do comportamento humano.
Há uma tendência , por parte das pessoas ,em rotular alguém ou algo(fenômeno) de normal ou anormal, ou excêntrico( eufemismo de desvairado,  tresloucado). Tal  hábito  se configura  em ato de  alienação porque  nem todos possuem consciência ou cognição necessária para avaliações. O senso comum só não é pior do que o crack e a heroína.
 Diante  disso, o preconceito se instala e passamos a discriminar tudo que não nos é espelho.Este comportamento  se forma na infância e solidifica-se na fase jovem do individuo.
Assim, podemos presenciar cenas de violência  explícita contra negros, gays, neo-hippies, apreciadores de bolero e congêneres...  Bom, em primeiro lugar, em se tratando de  ser normal em termos de biótipo humano, nós , ocidentais ,somos minoria uma vez que o modelo humano típico tem olhos “puxados” e mora na China. Eu poderia aqui elencar muitos exemplos da tolice  social em excluir “gentes” e “ modus vivendi” de alguns grupos. No entanto, não farei isso porque deu preguiça. Depois eu continuo essas divagações livres....

    Tchau( palavra de origem italiana que significa “Fui , peixe)          eheheheheheh

                                                                                                                             Allan Pimentel


Fonte da figura:liberatinews.blogspot.com(Bruno Liberati)



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Trechos do livro "O Demônio do Meio-dia" de Andrew Solomon

Trechos do livro O Demônio do Meio-dia – Uma Anatomia da Depressão, de Andrew Solomon


Trecho 1 – página 60
Geralmente são os eventos da vida que desencadeiam a depressão. ‘Um indivíduo está muito menos propenso a sofrer depressão numa situação estável do que numa instável’, diz Melvin McGuinness, da Universidade Johns Hopkins. George Brown, da Universidade de Londres, é o fundador das pesquisas sobre ‘eventos da vida’ e diz: ‘Acreditamos que a maioria das depressões é anti-social na sua origem; existe também uma doença depressão, mas a maioria das pessoas é capaz de criar uma depressão grave a partir de um determinado conjunto de circunstâncias. O nível de vulnerabilidade varia, é claro, mas acho que pelo menos dois terços da população têm um nível suficiente de vulnerabilidade.’ Segundo sua exaustiva pesquisa realizada durante mais de 25 anos, eventos que ameaçam gravemente a vida são responsáveis pelo desencadeamento inicial da depressão. Tais eventos envolvem tipicamente alguma perda – de uma pessoa querida, de uma função, de uma idéia sobre si mesmo – e se apresentam da pior forma quando envolvem humilhação ou uma sensação de estar preso numa armadilha. A depressão pode também ser causada por uma mudança positiva. O nascimento de um bebê, uma promoção ou um casamento podem desencadear uma depressão quase tão facilmente quanto uma morte ou perda.

Fonte: orientaçãopsicológica.com

O demônio do meio-dia

                                                 O Demônio do meio-dia

“Demônio do meio-dia” foi uma expressão utilizada na Idade Média tida como uma influência maléfica que provocava os erros no escritor, escultor etc… Podemos considerar o “Demônio do meio-dia” como a própria melancolia, ou seja, a perda do sentido da existência; falta de explicação por uma grande perda.
Na gravura de Dürer, Melancolia, a procura de compreensão está repleta de perturbação, de dúvidas reais criadas pelas ideias da Reforma e da Renascença.
O olhar absorto e concentrado na distância e, simultaneamente, na meditação, no olhar para dentro. No entanto, em Dürer há agitação intelectual, procura de conhecimento, de compreensão das contradições do mundo. A mão esquerda apoiando o queixo está ligado ao demônio, ao mal, entretanto nas pinturas a forma melancolica é a mão-direita segurando a cabeça.
O cão negro simboliza o diabo, que tem como objetivo atormentar.

Para Aristoteles, a melancolia vai ser vista como caracteristicas dos intelectuais, pois, os melancolicos são propensos à criatividade. Imaginação vai ter um objetivo de furor divino, onde a memória constitui a alma. O sábio não pode se refugiar na loucura, porém pode ser possuído por estranhas imagens. A imaginação é um meio demoniaco, as imagens conservadas na memória suscitam à imaginação. Mas o individuo fascinado por essas imagines desorganizadas, cria novas imagens, logo, a imaginção leva ao pecado, ao erro e à ilusão.
O demônio do meio dia faz com que o dia pareça lento ou imóvel. O demônio faz com que a pessoa possua um só pensamento.
Melancolia está ligado ao planeta saturno – satã
- tradição grega: Saturno – melancolia
- tradição oriental: satã – Acédia¹
Gregos: Khronos(Deus do tempo) encarna o soberano da idade de ouro. Khronos devora seus filhos, ou, as horas.
Latinos: Saturno possui a foice, com a qual cortou o pênis de seu pai; para fundar a geração dos titãs. Ele preside os trabalhos nos campos
Saturno: Planeta mais longe e de revolução mais lenta; representante do sol durante a noite. É a encarnação da inteligência suprema.
Para a astrologia Saturno é nefasto. Desde o 1º século a.c. por que ele passou uma temporada no Hades, representa a parte mais baixa do Universo, e a influência mais hostil.
Os nascidos sob Saturno têm o corpo deformado; cabelos negros, queixo coberto de pêlos, ar sombrio; peito estreito, tristes, com roupas sujas, não gostam de passear com as mulheres, ou com companhia.
A hora de Saturno é a hora do Mal

Anatomia da melancolia: 4 humores: Sangue, Linfa, Bile Amarela, Bile negra
Para melhor compreensão, segue um quadro:

  1. Sangue – sangüíneo – ar – quente/úmido – Júpiter – Primavera
  2. Linfa – fleumático – água – fria/úmida – Vênus – Inverno
  3. Bile Amarela – Colérico – fogo – quente/seco – Marte – Verão
  4. Bile Negra – Melancólico – terra -fria/seca – Saturno – Outono
A melancolia elizabetana
Melancolia na era elizabetana significa uma cruel fatalidade. “guardar fielmente a palavra dada chama a miséria. Arranja-te com os deuses e a sorte”. Melancolia é a tensão entre a terra e as estrelas.

Melancolica saturniana: Mercúrio o deus de pés alados é o deus dos artistas, agora Saturno. Traços: Excentricidade, gosto pela solidão.
A loucura melancólica é uma alienação da imaginação, não do espirito. A doença melancólica alterna 2 fases: a maníaca e a depressiva, segundo os tratados de medicina.
Os escritores: Hamlet – combate sua melancolia com a ironia.
Moliére: para ele, a melancolia é uma figura dolorosa
Para Boileau, a melancolia é a falta de gosto, e por fim, para Montesquieu que via no ar, nas uvas e no vinho excelentes antídotos contra a melancolia.


No quadro “Sweet Melancoly“, de Joseph-Marie Vien a melancolia é representada como uma jovem mulher, magra e abatida, assentada, onde as costas estão em oposição ao dia, apoia a cabeça na mão direita; e na esquerda segura uma flor, a qual não presta atenção. Seus olhos são fixos na terra. A doce melancolia que se apresenta cheia de graça.


Fonte:orientaçãopsicológica.com

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Benefício da dúvida postado por Allan Pimentel




Difícil é lidar com donos da verdade. Não há dúvida de que todos nós nos apoiamos em algumas certezas e temos opinião formada sobre determinados assuntos; é inevitável e necessário. Se somos, como creio que somos, seres culturais, vivemos num mundo que construímos a partir de nossas experiências e conhecimentos. Há aqueles que não chegam a formular claramente para si o que conhecem e sabem, mas há outros que, pelo contrário, têm opiniões formadas sobre tudo ou quase tudo. Até aí nada de mais; o problema é quando o cara se convence de que suas opiniões são as únicas verdadeiras e, portanto, incontestáveis. Se ele se defronta com outro imbuído da mesma certeza, arma-se um barraco.
De qualquer maneira, se se trata de um indivíduo qualquer que se julga dono da verdade, a coisa não vai além de algumas discussões acaloradas, que podem até chegar a ofensas pessoais. O problema se agrava quando o dono da verdade tem lábia, carisma e se considera salvador da pátria. Dependendo das circunstâncias, ele pode empolgar milhões de pessoas e se tornar, vamos dizer, um “fuhrer”.
As pessoas necessitam de verdades e, se surge alguém dizendo as verdades que elas querem ouvir, adotam-no como líder ou profeta e passam a pensar e agir conforme o que ele diga. Hitler foi um exemplo quase inacreditável de um líder carismático que levou uma nação inteira ao estado de hipnose e seus asseclas à prática de crimes estarrecedores.
A loucura torna-se lógica quando a verdade torna-se indiscutível. Foi o que ocorreu também durante a Inquisição: para salvar a alma do desgraçado, os sacerdotes exigiam que ele admitisse estar possuído pelo diabo; se não admitia, era torturado para confessar e, se confessava, era queimado na fogueira, pois só assim sua alma seria salva. Tudo muito lógico. E os inquisidores, donos da verdade, não duvidavam um só momento de que agiam conforme a vontade de Deus e faziam o bem ao torturar e matar.
Foi também em nome do bem — desta vez não do bem espiritual, mas do bem social — que os fanáticos seguidores de Pol Pot levaram à morte milhões de seus irmãos. Os comunistas do Khmer Vermelho haviam aprendido marxismo em Paris não sei com que professor que lhes ensinara o caminho para salvar o país: transferir a maior parte da população urbana para o campo. Detentores de tal verdade, ocuparam militarmente as cidades e obrigaram os moradores de determinados bairros a deixarem imediatamente suas casas e rumarem para o interior do país. Quem não obedeceu foi executado e os que obedeceram, ao chegarem ao campo, não tinham casa onde morar nem o que comer e, assim, morreram de inanição. Enquanto isso, Pol Pot e seus seguidores vibravam cheios de certeza revolucionária.
É inconcebível o que os homens podem fazer levados por uma convicção e, das convicções humanas, como se sabe, a mais poderosa é a fé em Deus, fale ele pela boca de Cristo, de Buda ou de Muhammad. Porque vivemos num mundo inventado por nós, vejo Deus como a mais extraordinária de nossas invenções. Sei, porém, que, para os que creem na sua existência, ele foi quem criou a tudo e a todos, estando fora de discussão tanto a sua existência quanto a sua infinita bondade e sapiência.
A convicção na existência de Deus foi a base sobre a qual se construiu a comunidade humana desde seus primórdios, a inspiração dos sentimentos e valores sem os quais a civilização teria sido inviável. Em todas as religiões, Deus significa amor, justiça, fraternidade, igualdade e salvação. Não obstante, pode o amor a Deus, a fé na sua palavra, como já se viu, nos empurrar para a intolerância e para o ódio.
Não é fácil crer fervorosamente numa religião e, ao mesmo tempo, ser tolerante com as demais. As circunstâncias históricas e sociais podem possibilitar o convívio entre pessoas de crenças diferentes, mas, numa situação como do Oriente Médio hoje, é difícil manter esse equilíbrio. Ali, para grande parte da população, o conflito político e militar ganhou o aspecto de uma guerra religiosa e, assim, para eles, o seu inimigo é também inimigo de seu Deus e a sua luta contra ele, sagrada. Não é justo dizer que todos pensam assim, mas essa visão inabalável pode ser facilmente manipulada com objetivos políticos.
Isso ajuda a entender por que algumas caricaturas — publicadas inicialmente num jornal dinamarquês e republicadas em outros jornais europeus — provocaram a fúria de milhares de muçulmanos que chegaram a pedir a cabeça do caricaturista. Se da parte dos manifestantes houve uma reação exagerada — que não aceita desculpas e toma a irreflexão de alguns jornalistas como a hostilidade de povos e governos europeus contra o islã—, da parte dos jornais e do caricaturista houve certa imprudência, tomada como insulto à crença de milhões de pessoas.
Mas não cansamos de nos espantar com a reação, às vezes sem limites, a que as pessoas são levadas por suas convicções. E isso me faz achar que um pouco de dúvida não faz mal a ninguém. Aos messias e seus seguidores, prefiro os homens tolerantes, para quem as verdades são provisórias, fruto mais do consenso que de certezas inquestionáveis.
  • autor: Ferreira Gullar
  • fonte: Folha de S. Paulo (edição impressa)