quinta-feira, 9 de abril de 2015

O ESTRANGEIRO, DE ALBERT CAMUS

Numa terra onde tudo convidava a viver, com areias reluzentes e um mar insanamente azul, Albert Camus (lê-se Albert Câmi) aprendeu bem cedo que a miséria limitava o paraíso argeliano a um lugar sem muitas oportunidades. Nascido em uma pobre família do interior da Argélia (de descendência francesa), foi graças a uma bolsa de estudos que Camus conseguiu entrar no liceu da capital. Sob o sol ardente, batendo sem cessar sobre o bairro Belcourt, o então garoto estudava o dobro de seus colegas, chegando à universidade em 1931. Quatro anos mais tarde, sua vida literária começa a engrenar. Fundou o Teatro do Trabalho e o jornal Alger Republicaine.
O Estrangeiro, de Albert CamusEm 1940, já em Paris como jornalista, a atmosfera da 2ª Guerra Mundial vinha tornando difícil a vida na França, de modo que Camus voltou para a Argélia, trazendo consigo o manuscrito de um romance. Era O Estrangeiro, livro que faria seu autor se transformar numa das figuras mais nobres da literatura francesa.
Escrito em uma época sombria de guerra, O Estrangeiro narra com incrível capacidade o que de mais trágico existe na condição humana: o absurdo, o limite entre aspirações e realidade.
Mersault, que reside em Argel, tem sua vida modificada bruscamente ao matar um árabe. Não pelos motivos óbvios.
A história se inicia com Mersault indo ao enterro de sua mãe. Um dia depois inicia um caso amoroso com Marie e se distrai alegremente no cinema com um filme de Fernandel.
Tem dois vizinhos de prédio. Um deles é Salamano, velho ranzinza cujo maior sentido na vida é castigar seu cão. O outro é Raymond, agiota de personalidade duvidosa que, no fim, é o grande responsável pelas desgraças de Mersault.
Em um dia quente Raymond, Mersault e Marie vão à praia. E é nesse cenário que o protagonista depara-se com o árabe inimigo de Raymond. O árabe puxa uma navalha e Mersault puxa o gatilho, disparando cinco vezes. Logo em seguida é acusado de assassinato e vai preso. Durante o processo muitos pormenores de sua vida vão adquirindo relevância extrema, como o fato de ter fumado no enterro de sua mãe. É tachado como insensível, um homem sem alma, considerado um forasteiro quanto aos ditames da sociedade. Seu advogado pouco pode fazer e Mersault recebe sentença de morte.
O protagonista da obra, Mersault, vive em permanente indiferença a todos os valores morais. É o homem que não aceita as regras do jogo. Mas também está disposto a ir até o fim defendendo a única verdade na qual acredita. Mersault nasceu para desmascarar o cinismo e o vazio por trás da sociedade como um todo e do indivíduo como elemento principal. O homem é um nada, abandona aqueles que ama e também é abandonado. O homem é impotente perante as desgraças que presencia, e por isso mesmo finge não as ver. O Estrangeiro está ali justamente para dissecar aquilo que está errado e nos abrir os olhos para a estupidez de nossa falsas regras morais.
Uma revolta que apaixona
Quanto mais o conhecemos menos temos certeza se Mersault é o herói ou anti-heroi dessa história, cujo desenrolar nos joga de um lado para o outro, tal como ventríloquos de Camus, sem saber direito mais o que é certo e o que não é. Pois nossas crenças mais sagradas serão de repente questionadas, à medida que avançamos sobre o psicológico de Mersault. Não estaremos prontos para isso. Cada frase dele nos soará como absurda, desprovida de qualquer contato com a razão ou com o sentimento. Porém, quanto mais se indaga sobre sua sanidade, mais se fascina com a idéia por ele pregada. Tudo é permitido, pois todos nós morreremos e os valores todos se desmoronarão. Para Mersault, não é preciso justificar nada, por isso ele não explica, apenas descreve. Seu silêncio reforça o mistério que seu ser emana. Se ele não tem o que dizer, simplesmente não se obriga a falar. Por isso é desesperadamente verdadeiro, sem jamais pisar no território das mentiras.
A revolta do personagem é uma revolta que apaixona. Seu espírito rebelde se iguala a uma espada, com a qual ele defende como um guerreiro os poucos certezas dessa sua vida pelas quais ainda vale à pena lutar ou morrer.
Na obra de Camus todos os personagens secundários merecem um olhar mais atento. Podemos perceber que nenhum deles está alí por acaso. Cada um contribui com um lampejo de lucidez. Cada um deles é construído para conduzir Mersault a trilhas incertas.
Albert Camus
No centro do caos instalado, sem começo nem fim, Camus não deixa de mencionar os cenários insólitos daquela capital encravada entre o mar e areia. A paisagem é peça fundamental da narrativa, colada a seu corpo ela dramatiza ainda mais o enredo. A sequência dos dias melancolicamente cintilantes de luz e calor, os fins de tarde cheios de uma magia indescritível, as noites desiludidas. Tudo isso faz parte uma beleza que salta para fora do livro. A técnica da descrição de Camus é tão poderosa que é quase como se pudéssemos sentir os aromas vindos do porto de Argel.
Não há definitivamente como escapar da sedução desse estrangeiro, a quem, ao final de páginas e páginas, ainda não temos a plena certeza de compreender. Mas a graça reside aí. Justamente porque não conseguimos decifrá-lo é porque nunca mais poderemos esquecê-lo.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Filosofia da Existência:Medo e Angústia


Filosofia da existência: Heidegger, medo e angústia


 Qual o sentido da vida? É difícil encontrar uma pessoa que, pelo menos uma vez, já não fez essa pergunta. Ela revela algo importante sobre nós, seres humanos. Primeiro, que temos consciência de estar vivos e de que vamos morrer algum dia. Segundo, que isso deve ter algum sentido, ou seja, um sentido propriamente humano.

Biologicamente, o sentido da vida é passar os genes para frente: vivemos enquanto indivíduos para garantir a continuidade da espécie como um todo. Mas esse sentido biológico não nos satisfaz. Imaginamos que possa haver algo além da satisfação de nossas necessidades vitais. Pois a satisfação das necessidades é um meio para nos mantermos vivos não a finalidade ou sentido da vida.

Como disse o filósofo Heráclito de Éfeso (540 - 470 a.C.) "se a felicidade estivesse nos prazeres do corpo, diríamos felizes os bois, quando encontram ervilhas para comer". Os bois vivem o momento, para eles não existe um passado nem um futuro, pois para ter passado e futuro é preciso haver um sentido.

 
A morte
Podemos igualmente viver como bois ou atribuir um sentido para existência. Isto é, pensá-la como um projeto, com uma parte por realizar que é condicionada pelo que já se fez e pelo nosso ser-no-mundo, nossa situação concreta. A dimensão do tempo só aparece quando percebo a minha finitude, que eu sou um ser-para-morte. Saber que se vai morrer é o que desperta a questão do sentido, pois se vamos morrer, que sentido tem estar vivo?

A morte pode despertar em nós dois sentimentos distintos: o medo e a angústia. O medo nos faz não pensar na morte, não nos enfrentarmos com o problema, adiá-lo, esquecê-lo. Mergulhamos em ocupações, em falações, até conversamos sobre a morte de outros, mas não da nossa.

Segundo o filósofo
Martin Heidegger (1889-1976), o medo nos convida a viver na impropriedade, não atribuímos sentido, deixamos que os outros e as circunstâncias o atribuam, nos alienamos de nós mesmos, vivemos sempre correndo, com nossas agendas cheias de distrações que nos ocupam. Vivemos num sentido impróprio que não aponta em direção alguma, como uma finalidade sem fim.( HEIDEGGER CHAMA ISSO DE MÁ-FÉ)

A angústia
Por que nos esforçamos por ser belos, ter dinheiro, possuir coisas? Claro, tudo isso pode fazer sentido, mas como meio, não como fim em si mesmo. Na verdade, são na maioria dos casos "sentidos emprestados", na falta de um sentido que seja próprio.

Se o medo da morte me lança na impropriedade, a angústia produz o efeito contrário, ela abre a inospitalidade do mundo, para sensação de "ficar sem chão". A angústia me revela uma compreensão do meu morrer, que sou singular. Percebo que não posso escapar da convocação que a angústia me faz de viver na propriedade. Ou seja, a possibilidade de ser eu mesmo.
Meu próprio tempo
Sou um tempo que se esgota e só tenho essa existência para ser quem sou. Percebo que sou o meu próprio tempo, não o tempo dos relógios, sempre regular e homogêneo. Mas um tempo finito em que o presente só faz sentido em relação a um futuro, a um projetar-se que me revela como realizador de minha própria história, que realiza um sentido que eu mesmo escolhi como minha marca pessoal na história da humanidade.

Heidegger não estabelece um juízo de valor de que seria melhor viver na autenticidade do que na impropriedade. Ambas são possibilidades de ser. Em qualquer momento da vida posso passar de uma a outra e vice-versa. Posso eleger um dos sentidos já prontos ou construir o meu. A vida em si não tem sentido, somos nós que atribuímos um sentido para ela.


domingo, 20 de janeiro de 2013

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Varal dos Sonhos (poesia) de Carlos Eduardo


                                                        Varal dos Sonhos





A saudade é devastadora
Quando enxágua a feição
E as palavras;
De molho, então,
Ficaram as vontades.
No varal dos sonhos
Enxugam-se as mágoas
E se maquiam os ciúmes
As cores se sentindo
Um tanto arrependidas
põem-se a secar
É quando secam , também,
Os carinhos que vão pela tábua do tempo
a passar.
Logo, os sentimentos
São dobrados
E os momentos
bem  guardados
para  serem,
de  tempo em tempo,
cuidadosamente   lembrados.
                                          Carlos Eduardo de   Oliveira  Andrade (Duda)

Fonte: WWW.recantodasletras.com.br/poesiasdesaudade.

sábado, 15 de dezembro de 2012

A Morte (poesia) por Clécio Abreu




                                    Morte



“Emaranhado nas lembranças,
Lágrima afogada pela dor.
Triste sorriso na noite,
Ofusca o brilho das estrelas.
Minha alma rasgada,
Chacina meu corpo.
Pés que vagam no deserto,
Cansado, deito.
Fecho os olhos,
Sossego.”

                            Clécio Abreu






segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Não tarda nada sermos...






 Não Tarda Nada Sermos Breve o dia, breve o ano, breve tudo.
Não tarda nada sermos.
Isto, pensado, me de a mente absorve
Todos mais pensamentos.
O mesmo breve ser da mágoa pesa-me,
Que, inda que mágoa, é vida.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

A Menina dos Fósforos de Hans Christian Andersen

                                               
                                     

                                             A Menina dos Fósforos        

Fazia um frio terrível. Nevava, e a noite aproximava-se rapidamente. Era o último dia de Dezembro, véspera de Ano Novo.Apesar do frio intenso e da escuridão, andava pelas ruas uma menina descalça e com a cabeça descoberta.
Ao sair de casa ainda trazia umas chinelas, mas que não lhe serviram de muito. Eram enormes, tão grandes que decerto pertenciam à mãe e a pobre menina tinha-as perdido ao atravessar a rua correndo, para fugir de duas carruagens que rolavam velozmente. Estava agora descalça e tinha os pés roxos de frio. Dentro de um velho avental tinha muitos fósforos e segurava um punhado deles.
Ninguém lhe comprara fósforos durante o dia e nem sequer lhe tinham dado uma esmola. Morta de frio e de fome, arrastava-se pelas ruas. A pobre criança era a imagem da miséria. Caíam-lhe flocos de neve sobre os cabelos louros muito compridos.
 As janelas das casas estavam todas iluminadas. Pelas ruas, espalhava-se o cheiro reconfortante de gansos assados, pois era véspera de Ano Novo.

A menina acocorou-se no ângulo formado pelos muros de duas casas. Encolhera as pernas e sentara-se em cima delas, mas continuava a ter frio. Não ousava voltar para casa porque não vendera nem um fósforo e não tinha sequer uma moeda para entregar ao pai. Temia que este lhe desse uma sova. Além disso, em casa fazia quase tanto frio como na rua, porque tinham apenas o telhado para os cobrir. Apesar de terem tapado com palha e trapos todas as frestas, o vento gelado penetrava incessantemente.
Tinha as mãos quase geladas pelo frio. Ah! Talvez a chama de um fósforo a pudesse aquecer um pouco. Oh! Um fósforo, apenas um! Esfregou o fósforo na parede e protegeu com uma das mãos a chamazinha viva. Que brilho magnífico! Pareceu-lhe que a chama era uma braseira de cobre acesa, irradiando um calor reconfortante. A rapariguinha estendeu os pés para os aquecer mas, subitamente, o fósforo apagou-se, a maravilhosa braseira desapareceu e a criança ficou apenas com um fósforo meio consumido entre os dedos.
Pegou noutro e acendeu-o. O brilho era tal que tornava o muro de um dos prédios tão transparente como vidro. A criança viu então uma sumptuosa sala de jantar, no centro da qual estava posta uma mesa coberta com uma toalha tão branca como a neve. Sobre ela havia copos de cristal, pratas e finíssimas porcelanas, reflectindo milhares de luzes. Numa travessa estava um ganso recheado com ameixas secas e maçãs fumegantes. Um cheiro delicioso espalhava-se pelo ar. De súbito, o ganso, apesar do garfo e da faca que tinha espetados no dorso, saltou do prato e dirigiu-se, bamboleando-se, para junto dela.
De repente, o fósforo apagou-se e a menina via, agora, o espesso muro do prédio.Riscou outro fósforo e viu-se sentada junto de uma árvore de Natal magnífica, ainda maior e mais bela do que a que vira no Natal anterior, através da porta de vidro da casa de um rico comerciante. Uma infinidade de bolas coloridas reflectia os milhares de velas que ardiam por entre a ramagem. Dos ramos mais baixos pendiam, em fios de prata, laranjas e frutas cristalizadas.
 A menina estendeu os braços para tanta maravilha, mas o fósforo apagou-se e todas as velas da árvore subiram para o céu, transformando-se em estrelas.

Uma delas caiu, deixando um longo rasto luminoso. «Morreu alguém», pensou a criança.
 A avó, a única pessoa que lhe dera afecto e que já tinha morrido, dissera-lhe um dia:
 - Sempre que cai uma estrela, uma alma entra no Paraíso.
 A menina riscou outro fósforo na parede. Viu, então, à luz da chama, o rosto meigo da avozinha.
 - Avó, leva-me contigo. Sei que vais desaparecer, quando se extinguir o fósforo. Desaparecerás como a braseira, o ganso recheado e a grande árvore de Natal - disse a criança.

Pôs-se a acender todos os fósforos que restavam na caixa, para conservar junto de si a imagem da avozinha. Os fósforos davam uma chama tão clara que parecia dia. Nunca a avó fora tão bela e tão grande como naquela noite.
 A bondosa senhora pegou na criança entre os braços e ambas se elevaram no espaço, envolvidas por uma luz extraordinária. Subiram alto, muito alto, até onde deixa de existir o frio, a fome e o medo.
 E, quando chegou a madrugada, encontraram a criança estendida no chão, com as faces rosadas e um sorriso nos lábios. Estava morta. Tinha morrido de frio, na última noite daquele ano.
 O Sol do dia do Ano Novo ergueu-se sobre o corpo frágil e abandonado na neve. O avental da criança continha ainda alguns fósforos, mas perto do corpo encontrava-se um pacote de caixas vazias. No entanto, ninguém podia supor as esplêndidas coisas que a menina tinha visto, nem sequer a emoção que sentira ao ser levada pela bondosa avozinha, no dia em que o novo ano principiava.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

SOUTH PARK E A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

South Park e a questão da inteligência artificial...




O episódio de South Park desse Sábado foi muito interessante. Só vi o fim mas acho que por algum motivo escuso o Cartman se disfarçou de Robô. Ele foi descoberto após peidar. Afinal, seria possível a criação de criaturas artificiais, cérebros de Silício, que peidem?
Lembrei das intermináveis discussões sobre a Inteligência Artificial nas aulas de filosofia da mente, no mestrado de Metafísica. A idéia parece ser a de que a consciência é uma função do cérebro, ou melhor, um modo de organização de determinadas funções cerebrais, de maneira que, se você reproduz a organização da função em outros meios, como por exemplo, numa rede de chips de Silício, poderia reproduzir a consciência.
Essa é a hipótese da tal metáfora Hardware / Software. O Hardware seria o cérebro e o Software a consciência. Os críticos afirmam que isso cria um dualismo mente/cérebro semelhante ao dualismo mente/corpo cartesiano.
Outra frente de combate a Inteligência Artificial é a idéia de que a consciência é uma função biológica (e não meramente organizacional) de determinados meios materiais formados apenas a base de CHON (Carbono, Hidrogênio, Oxigênio e Nitrogênio), ou seja, criaturas vivas de modo que, para se fazer um robô como o Cartman tentou imitar no episodio de South Park seria necessário produzir microchips a base de carbono e não de silício. Ou seja, criar um clone e não um andróide.
Agora apareceu mais um problema. Tem uma turma alegando que no caso humano as funções organizacionais de conexões entre neurônios interagem com o a estrutura material do cérebro, modificando a estrutura biológica do dito cujo.
Mas ainda tem o problema do peido.
Como imaginar que apenas a consciência define o homem? Também não somos animais que peidam? Não seria o pum um elemento também importante na constituição daquilo que chamamos Humano? Flatulo ergo sum.

Esta deve a próxima grande questão filosófica a ser respondida.
A próxima grande geração de criaturas artificiais necessitará flatular e não apenas vencer partidas de xadrez.

Tirinhas da Mafalda



   fonte: www.clubedamafalda,blogspot.com